O que esconde o Conde?
Quando o dinheiro que financia o entretenimento vira o protagonista?

Em 2006, Mario Frias interpretava o Conde Máximo, em ‘Floribella’. O personagem chega na segunda temporada para assumir a tutoria dos irmãos Fritzenwalden após a morte de Fred (Roger Gobeth). Com uma personalidade fria e arrogante, o Conde esconde seus sentimentos, como a paixão por Flor (Juliana Silveira), atrás de uma postura rígida.
Vinte anos depois, Frias não interpreta mais o “príncipe azul”, como era chamado pela protagonista, mas aparece na produção mais comentada do momento.
O deputado federal (PL-SP) e ex-secretário especial da cultura atua como produtor executivo de ‘Dark Horse’ (2026), filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A obra é uma das pautas mais comentadas do momento por estar no centro da Operação Make Up, investigação da Polícia Militar para averiguar um esquema de desvio de recursos públicos de emendas parlamentares destinadas ao filme.
A investigação ainda está em andamento e Frias negou as irregularidades em um vídeo publicado nas redes sociais.
O filme tornou-se alvo da operação em meio ao escândalo do Banco Master, por conta de vazamentos de áudios nos quais membros da produção e o senador e candidato a presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, negociam repasses de dinheiro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso pela polícia federal no âmbito da Operação Compliance Zero.
Vorcaro é o principal financiador do filme, junto com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC), organizações ligadas à produtora Karina Ferreira, que receberam verbas públicas (como contratos com a prefeitura de São Paulo e os repasses de emendas associadas à Frias).
Mas o que esse caso tem a ver com o entretenimento além de ‘Dark Horse’? Muita coisa! Já parou para pensar em toda estrutura financeira que promove a cultura? Indo de longas ao teatro, de festivais à shows. Tudo envolve (e necessita) de muito dinheiro.
Quando falamos de filmes, pensamos no cachê dos atores, dos roteiristas e diretores, na estrutura e, às vezes, na distribuição do filme, mas existe uma estrutura muito maior por trás. Estamos falando da produtora, dos investidores, contratos, fornecedores, equipe, publicidade, bilheteria/plataformas. Tudo que custa e gera dinheiro.
Cada produção é diferente e tem seus tipos de financiamento, podendo vir de recursos públicos, incentivos fiscais (como a famosa Lei Rouanet), investimentos privados ou outras fontes de patrocínio. E é assim que a arte existe.
Mas será que com tantas formas de financiamento, o desvio de dinheiro também não fica mais fácil? ‘Gotti: O Chefe da Máfia’ (2018) contou com 44 produtores executivos.
‘Pluto Nash’ (2002), foi um fracasso de bilheteria, mas teve um orçamento de US$100 milhões.
Ambos os casos viraram teorias e levantaram debates sobre inflacionamento de custos de produção em grandes corporações, engenharia contábil no cinema, a transparência e fiscalização do real destino e a origem do capital investido.
No final a conta sempre chega, mas quem paga? Quando há casos onde o desvio de dinheiro deixa de ser teoria e se torna investigação, o número de pessoas atingidas pode ser muito maior do que os só investigados. A confiança nos profissionais contratados cai, a reputação de produtoras, investidores e distribuidores é afetada e até o próprio setor cultural pode ser prejudicado.
Afinal, se as produções estão sendo usadas para outros fins, por que empresas investiriam em outras obras correndo o risco de cair em uma “furada”? E é nesse momento que o setor cultural é afetado.
O entretenimento não existe sem o dinheiro. Produzir um filme custa dinheiro, pagar profissionais também, para alugar os equipamentos necessários e até para distribuir o filme é preciso de dinheiro. Isso sem contar o lucro esperado pela produção, que também pode ser afetado.
Em epócas de desvios de dinheiro no meio cinematográfico, como não desconfiar de outros filmes e confiar na transparência do que é investido?

Em 2006, Mario Frias vivia uma história de romances, palácios e fantasia, onde ele escondia seus sentimentos como um Conde milionário. Em 2026, seu nome aparece ligado a uma produção cercada por uma investigação que mistura cinema, política e muito dinheiro.
‘O que esconde o Conde’ foi um dos hits de Floribella na época, hoje a dúvida cai sob Frias em outro contexto e nos faz questionar sobre a transparência do dinheiro investido na cultura e as consequências do mau uso dele. Qual sua opinião sobre o assunto? Conta pra gente!




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